25/08/25
19/10/24
Libertação
Era uma vez, uma jovem e bela borboleta, de asas amarelas e pretas, cheias de desenhos lembrando pequenos olhos.
Num fim de tarde,
esvoaçando distraída procurando as flores da sua preferência, começou a sentir
uns borrifos em cima. Parou admirada e verificou que chovia. As suas asas já
cansadas de um dia a esvoaçar, começavam a pesar.
A chuva, como todos sabem e ela também, molha as asas e inibe-a de voar. Por
isso, procurou um abrigo quentinho e seco. Voou um pouco e entrou numa porta
que estava aberta.
Ali se deixou
ficar, num cantito, fora do alcance da chuva.
A noite fechou-se
e ela por ali se deixou estar.
Mas, arrefeceu
muito e ela sentia as asas presas e imóveis.
Decidiu
aproveitar. Fechou a asas, bem fechadas, fechou os olhos, recolheu as finas e
delicadas patitas e dormiu. Assim, quando o novo dia chegasse estavam as forças
retemperadas, para iniciar novos voos.
A manhã veio
despertá-la no mesmo lugar. Tinha frio e queria voar para procurar alimento,
mas não se conseguia mexer. De repente o sol despertou também, estendeu um raio
para ela, e começou a dar-lhe a energia tão necessária.
Quando se
preparava para sair reparou que começavam a entrar muita gente, humanos.
Sobressaltou-se.
Sabia que deveria
ter mil cautelas. A mãe tinha-lhe contado que os humanos são gente estranha,
sobretudo em relação às borboletas. Havia alguns que as apanhavam e as
espetavam com alfinetes condenando-as a uma morte horrível, para ficarem em
exposição, onde depois as iam admirar, mortas.
À medida que o sol
lhe aquecia as asas, que ela ia fechando e abrindo, ganhando energia,
preparou-se para se esgueirar sorrateiramente, sem dar nas vistas. Mas… que era
aquilo? Via lá fora tudo, mas não conseguia sair. Ela não conhecia os vidros e
não percebia que estava no peitoril de uma janela.
Entretanto, e para
sorte da borboleta, entrou uma humana que respeita todos os seres que consigo
partilham a terra e vendo as suas tentativas, sabendo que não lhe podia pegar
pelas asas, pois isso as danificaria, retirando aquele pozinho fino, tão
necessário ao voo, pegou num pequenino guardanapo, colocou-o com muita
delicadeza debaixo das suas patinhas, pequeninas e frágeis e passou a borboleta
para a palma da sua mão aberta, ao mesmo tempo que lhe dizia:
- Não te quero
fazer mal, apenas levar-te para a liberdade, por isso deixa-te ficar quietinha.
05/05/24
A Manta de Farrapos
A hora de
dormir era a sua preferida. Já sabia que a avó lhe daria a mão, a acompanhava à
caminha, aconchegava a roupa e contava uma das suas histórias.
- Avó conta
uma história para chamar o soninho.
- Que te
hei-de contar hoje, minha netinha?
- Hoje pode
ser a história daquela manta feita de tecido e que é linda, mas pesada, para me
tapar e por isso está a embelezar o chão e a aquecer os meus pezinhos, quando
ando descalça, como gosto. Um dia disseste que me contarias.
A avó,
pessoa nova ainda, talvez entre 60 e 70 primaveras, olhou aquele pequeno ser,
afagou-lhe os cabelos aloirados, admirando o seu olhar vivo e brilhante, na
perspectiva de uma história, que já se tinha tornado quase num ritual diário.
Pensou um
pouco e começou:
- Naquele
tempo, em que eram feitas estas mantas, chamadas mantas de trapos, as pessoas
de um modo geral eram muito pobres, não tinham dinheiro para comprar coisas
melhores, e então aproveitavam os chamados farrapos, que poderiam ser pedaços
de blusa que já se tinham rompido e não dava para vestir, lençóis que já não
podiam ir para a cama por terem muito uso, panos que serviam para os mais
diversos fins, enfim, uma infinidade de coisas, já sem préstimo e só serviam
para farrapos.
Iam-se juntando
num cesto, ou caixa, já que não havia plásticos, sacos ou outros recipientes, e
depois quando já havia a quantidade que a mãe achava suficiente, sentávamo-nos
à porta, nas tardes de Verão, ou à lareira, nos dias frios de Inverno,
cortávamos cada farrapinho, com a tesoura, em tiras mais ou menos com 2 ou 3
centímetros de largura, emendávamos umas nas outras e no final de tudo feito
enrolavam-se então, formando novelos, grandes demais, para as minhas mãos
pequenas. Na altura eu era pouco mais velha do que tu és hoje.
- Ó vó e já
fazias trabalhos?
- Sim,
querida. Naquele tempo começávamos a cumprir tarefas para ajudar os nossos
pais, ou a ajudar a mãe a tratar dos manos mais novos, porque tínhamos de
participar todos, nas tarefas que havia para fazer e eram muitas.
-Mas eras
criança, como eu.
- Pois era,
mas comecei a trabalhar muito cedo. Um dia vou contar-te a história.
Agora vamos
lá ao final da manta de retalhos, ou trapos, como eram chamadas.
Feitos
esses novelos que já mencionei, a mãe esperava a vinda de um senhor, a que chamava
tecelão. O senhor tinha teares, um dia vou explicar-te o que é. Talvez até o
melhor mesmo é visitar um museu onde haja um, para veres o que era e saberes
como funcionava, ou ainda funciona, nalguns lugares do nosso país, embora
poucos.
Como ia dizendo
vinha o tecelão e levava os novelos. Falava com a mãe, sobre o prazo de
entrega, porque a mãe tinha de estar em casa. Quando chegava trazia uma linda
manta feita com as tiras que iam nos novelos, a mãe pagava algum dinheiro, não
te posso dizer quanto, porque as crianças não percebem nada de dinheiro, não é?
- Vó a tua
mãe era minha bisavó não era?
- Sim, era.
- Como te
contava, a minha mãe punha a manta por cima da nossa cama, onde eu dormia com a
minha irmã. Nessa altura havia pouco dinheiro para comprar camas e outras
mobílias e por isso eu dormia com a minha irmã na mesma cama. Mas havia um
problema. A manta era muito pesada e eu não conseguia dormir. Quase sempre a
tirava de cima, embora depois ficasse com frio. Eram tempos difíceis, minha
netinha. Não havia aquecedores, a não ser o lume, mas a lenha era pouca e
tínhamos de a ir buscar longe aos pinhais. Era muito difícil para quem não
tinha pinhais. Mas estou a desviar-me do assunto. Ficará para outra história
sim?
- Sim avó.
- Agora
vamos dormir em sossego, querida. Tem um soninho doce e brilhante como o teu
olhar. A vó gosta muito de ti.
Até amanhã e outra história.
18/12/23
Boas Festas
Que o Natal que se avizinha, tempo de renascimento e magia no Mundo, traga a Paz ao coração da Humanidade.
Boas Festas para todos!
09/12/23
04/12/23
04/11/23
Eu, candeeiro de rua
Repousava tranquilamente, nas profundezas da terra que me criou, juntamente com todas as irmãs, nas nossas casas, chamadas jazidas, onde me sentia feliz e protegida.
Num certo dia, não sei precisar quando, porque era uma pedra e pedra não tem calendário, nem relógio, nem tempo, eis que chegam humanos e máquinas barulhentas, que nos abanam, estremecem, perfuram e arrancam à força da mãe que nos deu vida e amparo.
Transportam-nos em camiões barulhentos e levam-nos para um buraco que nos engole, tritura e nos transforma em pó. Pensávamos morrer ali, mas não. Misturam-nos com água e outros minerais e transformam-nos em algo a que ouvi chamarem cimento. Depois disso juntam-nos a outros desconhecidos, num enorme depósito e deixam-nos em repouso, embora sem sabermos o que ali esperávamos.
Numa certa manhã, em que o sol estendia os seus raios pela janela, abriu-se de repente uma espécie de boca grande, fomos sugados e metidos à força, numas gaiolas estreitas e compridas onde ficámos até nos sentirmos completamente secas. A seguir, retiram-nos da gaiola e dão-nos liberdade, separando-nos em várias filas muito direitinhas e ali ficámos quedos e mudos.
Vieram uns homens e começaram a falar perto, por isso eu pude ouvir perfeitamente o que diziam:
- Estes postes ficaram de excelente qualidade e dentro em breve serão espalhados por aí, segurarão os fios, serão colocadas as lâmpadas e darão uns belos candeeiros de iluminação pública.
Ao ouvir isto compreendi no que me tinha transformado e para o que ia servir.
Fiquei surpreendido, mas satisfeito. Afinal seria a luz que iluminaria a noite e os caminhos. Veria e faria ver, homens e outros bichos, a lua a brilhar desafiando a minha luz e a do sol.
Certo dia colocaram-me, juntamente com outros iguais, num enorme camião e levaram-nos para uma rua, espalhando-nos a uns metros uns dos outros, abriram um buraco e colocaram-nos lá o pé dentro. Senti-me a voltar à terra mãe.
Ali fiquei, alto e garboso a iluminar quem passava, junto a uma modesta casa, encostadinho ao muro.
Tornei-me o poste mais belo da rua, pois que ao longo do muro começou a crescer uma bela trepadeira, que me fazia lembrar videiras e que gentilmente me enlaçou, enrolando-se toda à minha volta. Aceitei e entreguei-me completamente a esse abraço. Quem por lá passa, não pode deixar de parar e contemplar esta prova viva de amor entre dois seres tão diferentes.